Não existe voz certa para cada estilo
Existe uma crença muito comum entre quem está começando a cantar: a de que certas vozes combinam com certos estilos. Que quem tem voz suave só serve para o samba, que quem tem voz agressiva vai bem no rock. Isso é um equívoco.
Não existe um estilo para cada voz. Todas as sonoridades que você ouve em diferentes gêneros musicais podem ser trabalhadas na sua própria voz. O que existe são ajustes vocais, e eles mudam tudo.
O que acontece na prática é que certas vozes se tornaram referências dentro de um estilo. James Brown no soul, os vocalistas do Iron Maiden no heavy metal. Essas vozes ficaram tão conhecidas que criaram uma associação automática entre aquela sonoridade e o estilo. Mas isso não quer dizer que existe um modelo certo. Música é arte, existe criatividade, e você pode cantar o estilo que quiser com a sua voz.
O que são ajustes vocais
Ajustes vocais são formas de manipular a sua voz para alcançar determinado tipo de som, uma sonoridade específica. Quando você canta, você não precisa soar do mesmo jeito que fala. Você pode modificar sua voz usando técnicas que já são bem estabelecidas no estudo do canto.
Cada estilo musical tem ajustes que são mais característicos dele. Você não espera ouvir uma voz completamente tranquila cantando heavy metal, assim como não espera ouvir uma voz agressiva numa balada suave. Isso não é regra, é expectativa de sonoridade. E essa sonoridade pode ser trabalhada.
Quando falamos em ajustes, não estamos falando de imitar uma pessoa. Estamos falando de identificar os elementos que aquela pessoa usa na voz dela e incorporar esses elementos na sua própria voz. A diferença é importante: você não vai virar aquela pessoa, você vai expandir o que a sua voz consegue fazer.
As três áreas de ressonância
Para trabalhar os ajustes vocais, você precisa ir além das pregas vocais. A sonoridade da voz é moldada principalmente pela ressonância, e o corpo humano tem três áreas principais: a rinofaringe, a orofaringe e a laringofaringe.
A rinofaringe corresponde às cavidades nasais, o espaço logo acima do palato. A orofaringe é todo o espaço da boca e do fundo de boca. A laringofaringe é o espaço na região da laringe. São esses três espaços que vão modificar o som e permitir que você alcance a sonoridade que busca.
Manipular esses espaços, abrindo mais, fechando, direcionando o som para uma cavidade ou outra, é o que chamamos de trabalhar a ressonância. É nisso que os ajustes vocais se baseiam.
Como identificar o ajuste que você quer
Antes de partir para os exercícios, você precisa saber o que está buscando. Não adianta treinar sem direção.
O passo inicial é imitar o cantor cuja sonoridade você quer trabalhar. Não tem problema ficar caricato, ficar engraçado. Na verdade, isso é exatamente o que precisa acontecer nesse momento. Quando você imita uma voz e ela fica exagerada, você está identificando quais ajustes aquela voz usa. Se você imitou o Bob Esponja, por exemplo, você subiu a laringe. Se você imitou uma voz mais escura, você provavelmente abaixou a laringe e abriu mais o espaço de boca.
Esse processo de imitação é um exercício de percepção. Você está mapeando o que precisa mover, onde precisa direcionar o som. Depois de identificar esses ajustes, você vai cantar uma música com essas sonoridades de forma exagerada. O exagero é intencional porque ele treina o corpo a explorar uma nova região, uma nova possibilidade.
A lógica é simples: você está em zero, você vai para 100 no exagero, e depois equilibra em 50. Esse é o ponto onde o ajuste já está ativo na voz sem parecer forçado. Esse é o treino.
Para entender melhor como esses espaços de ressonância funcionam e por que certas tensões bloqueiam o som, o post sobre voz de garganta aprofunda bem esse tema.
Dois exercícios práticos de ressonância
Agora que você entende o conceito, é hora de treinar. Esses dois exercícios trabalham os ressoadores de formas diferentes: o primeiro foca em ampliar o espaço, o segundo em aumentar o brilho da voz.
Exercício 1: Sopro na mão
Pegue a parte de trás da sua mão e sopre nela. O som produzido deve ser confortável, com um pouco de ar escapando, mas com pressão suficiente para criar resistência. Faça isso por um minuto, pausando para respirar quando precisar. O volume não precisa ser alto.
Repita esse exercício três vezes antes de seguir para o próximo. Esse exercício trabalha a abertura dos ressoadores e ajuda a ampliar o espaço disponível para a voz.
Exercício 2: Som exagerado com brilho
Esse exercício é caricato por natureza e deve ser assim. Você vai produzir um som bem exagerado, como se estivesse fazendo uma careta, puxando a sonoridade para cima com brilho. O objetivo é ativar os ressoadores e adicionar mais brilho à voz.
Faça o som algumas vezes para entender o movimento antes de seguir uma sequência contínua. Se alguma parte ficar muito aguda para você, simplesmente não continue naquele ponto. Repita esse exercício duas vezes.
Quem quer expandir as capacidades vocais além da ressonância pode complementar com os exercícios do post sobre como aumentar a extensão vocal.
O caminho prático
Resumindo o processo: primeiro você identifica a sonoridade que quer imitando o cantor de referência, mesmo que fique caricato. Depois você treina essa sonoridade de forma exagerada por alguns minutos para que o seu corpo aprenda a acessar essa região. Por fim, você equilibra e integra o ajuste à sua voz natural.
Não existe voz inadequada para um estilo. Existe falta de treino dos ajustes certos. E ajuste se treina.







