O medo de estar só imitando quem você admira
Você canta parecido com o artista que mais ouve e vem a dúvida: isso é a sua voz aparecendo ou é só cópia? Entender identidade vocal ajuda a responder essa pergunta sem culpa nenhuma.
Esse medo trava muita gente antes mesmo de abrir a boca em público. Se ele também te impede de simplesmente cantar na frente de alguém, vale entender como vencer a vergonha de cantar antes de se preocupar com originalidade. Primeiro solta a voz, depois a gente lapida o resto.
As referências são a matéria prima
Toda pessoa que canta tem uma banda ou um cantor que mais ouviu. Comigo foi assim desde adolescente. No gospel, eu era muito fã do PG, vocalista do Oficina G3, e boa parte do que eu faço hoje cantando vem dali. Depois vieram outras referências, Brian McKnight, Boyz II Men, e fui trazendo cada uma delas pra dentro da minha forma de cantar.

Meu irmão ainda hoje comenta quando eu faço algo parecido com o PG. Eu recebo isso como elogio, nunca como crítica. O vocalista do Creed canta parecido com o vocalista do Pearl Jam, e essa proximidade de estilo é fácil de reconhecer assim que você ouve os dois.
Ter uma referência óbvia no começo é a fase normal de quem ainda está se formando como cantor. Um exemplo bom disso é o cantor Jorge Vercillo. Quando ele estourou como intérprete, muita gente falou que ele era um cover do Djavan.
Ele mesmo já rebateu essa comparação. Nunca foi cover só do Djavan, sempre foi cover do Caetano, do Gil, do Milton Nascimento, do Stevie Wonder e do Djavan, de tudo que é bom. Quando você tem várias referências ao mesmo tempo, elas deixam de ser imitação de uma pessoa só e viram matéria prima.
Um estudo publicado no Journal of Creative Arts, da UiTM, olhou justamente para a imitação de estilos vocais de programas de talento e concluiu que imitar de propósito faz parte do aprendizado. É o que a gente vê na prática: quanto mais nova a voz artística, mais destacada fica a referência, porque ainda está tudo em formação.
Seus gostos únicos dentro dessas referências
Dentro de cada referência existe uma parte que você gosta mais e uma parte que gosta menos. Isso já separa você do cantor original, porque ninguém curte tudo igual em ninguém. A dica é a gente mapear: daquele cantor eu gosto disso, daquele eu gosto daquilo, e tal coisa eu não gosto.
Com esse mapa na mão, a gente percebe um padrão. Você não imita um cantor inteiro. Pega pontos específicos que ressoam em você, e provavelmente esses mesmos pontos aparecem em mais de uma das suas referências.
O timbre é seu, o tempo faz a mistura
Tem ainda o timbre, o som que só a sua garganta produz. Por mais que você tente imitar a voz de alguém, ela nunca sai igual, porque o timbre é físico, é seu. Referências, gostos únicos e timbre juntos formam os três ingredientes da sua identidade vocal.
Eu não gosto de manga pura com açúcar, também não gosto de suco de manga puro, mas gosto de vitamina de manga com leite.
É isso que acontece quando a gente mistura referência, gosto e timbre ao longo do tempo. Cada ingrediente sozinho, cada gosto isolado, o timbre cru, nada disso é a sua identidade vocal ainda. O tempo é quem mistura tudo até virar um produto novo, que agrada gente que nem gosta das suas referências originais, mas gosta de você.
Uma tese da Macquarie University que investigou cantores e professores de canto apontou na mesma direção. A voz de cada pessoa é moldada pela combinação entre aprendizado, cultura, convívio e as referências que ela carrega ao longo do tempo.
Quando você reconhece sua própria voz
Eu ainda hoje canto frases e faço riffs que reconheço na hora, isso aqui é do Boyz II Men, isso aqui é do PG. Não me incomodo, porque são minhas referências, elas fazem parte de mim. Quando alguém disser que você parece com fulano, pode simplesmente confirmar: gosto muito dele, me inspirei bastante nele. Isso não te diminui, porque você não é só isso.
A música trabalha com pouco material. A limitação é da linguagem musical, ela tem doze notas e ponto, sete principais mais os acidentes. Algum padrão melódico seu já foi feito por outra pessoa antes, e tudo bem.
Se a sua voz ainda parece uma cópia, fica tranquilo. O fator tempo ainda não teve chance de bater todos esses elementos e gerar o produto novo. Olha só, volta pro mapa que você já começou, daquele cantor eu gosto disso, daquele eu gosto daquilo, tal coisa eu não gosto, e continua ouvindo suas referências de propósito. Com o tempo isso vem. Bora cantar bem.







