Por que estudar respiração se já sabemos respirar
Parece uma pergunta óbvia. Todo mundo nasce respirando, o corpo funciona sozinho. A resposta é que, apesar de respirarmos desde sempre, a maioria das pessoas desenvolve ao longo da vida um padrão incorreto de respiração que atrapalha o canto.
O teste mais simples para identificar esse padrão é o seguinte: quando alguém te pede para respirar fundo, o que você faz? Para a maioria das pessoas, o peito sobe. Isso é respiração alta, e é o padrão errado para quem canta.
O pulmão tem formato aproximado de triângulo, com a base maior na parte de baixo. Quando você respira de forma correta, o diafragma empurra os órgãos internos para baixo, criando espaço para o pulmão expandir. As costelas se abrem lateralmente. A barriga se expande. Esse é o movimento natural e correto. Quando você levanta o peito para respirar, está privando o corpo desse movimento e forçando uma musculatura que não deveria ser usada dessa forma.
O que o estudo da respiração realmente faz
Estudar respiração para o canto não significa aprender a usar o diafragma. O diafragma já funciona quando você respira, querendo ou não. O mesmo vale para os intercostais. Essas estruturas já estão trabalhando.
O que o estudo faz é três coisas: corrige padrões incorretos que você desenvolveu ao longo da vida, expande a capacidade respiratória levando o pulmão a limites que você normalmente não usa, e fortalece a musculatura para que você tenha mais controle sobre a saída do ar.
Esse controle da saída de ar é o que se chama de apoio, assunto relacionado mas diferente da respiração em si. Os dois estão entrelaçados, mas não são a mesma coisa.
Respiração baixa e respiração intercostal
O padrão correto para o canto é a respiração baixa, com ênfase na abertura intercostal. Para entender o movimento, coloque uma mão no peito e outra na barriga. Respire puxando o ar de forma que a mão da barriga se mova para fora. Solte o ar deixando a barriga murchar. O peito deve se mover o mínimo possível.
A respiração intercostal é a variação desse padrão com foco na abertura lateral das costelas. Coloque as mãos nos lados do tronco, onde terminam suas costelas. Ao inspirar, tente empurrar as mãos para os lados. Ao expirar, tente devolver as mãos para dentro. No começo o movimento vai ser pequeno. Com o treino, você vai perceber cada vez mais essa expansão lateral.
Pode parecer pouco movimento nas primeiras tentativas. Também é comum sentir um leve tontura nas primeiras sessões de exercícios de respiração. Isso é normal. Se acontecer, respira fundo devagar, descanse um minuto e continue com calma.
Exercício 1: Consciência da respiração correta
O primeiro exercício não tem carga. O objetivo é fixar o padrão correto na memória do corpo antes de qualquer outra coisa.
Coloque as mãos nas costelas. Solte todo o ar. Depois, inspire expandindo as costelas para os lados e sentindo a barriga se expandir. Solte o ar devagar, sem pressa, sem esvaziar completamente o pulmão.
Um detalhe importante: não esvazie o pulmão completamente. Quando o ar de reserva é usado, o corpo inteiro se comprime para expulsar o que sobrou, a laringe fecha, as pregas vocais ficam em estado de emergência. Não é isso que queremos no estudo. Mantenha sempre um pouco de ar no pulmão.
Repita cinco vezes em cada sessão de estudo. Mantenha as costelas abertas o maior tempo possível durante a expiração.
Exercício 2: S prolongado e contínuo
Nesse exercício você começa a colocar carga muscular. O objetivo é treinar a isometria da musculatura abdominal, ou seja, a capacidade dela de sustentar uma contração ao longo do tempo.
Inspire da forma correta. Depois solte o ar fazendo um som de S contínuo, suave e uniforme. Não pode ser forte demais, não pode variar a pressão. Deve ser um S constante, quase silencioso, que dura até você sentir que o ar está acabando, mas sem forçar o fundo do pulmão.
Se o S sair irregular, com solavancos, é sinal de que você não está controlando o fluxo. Se sair muito forte e o ar acabar rápido, você está exagerando na pressão. O ajuste correto é um S longo, fino e constante.
Repita cinco vezes. Sente a musculatura abdominal trabalhando durante a expiração.
Exercício 3: S com ataques
Esse exercício treina a força de ataque da musculatura abdominal, o que é diferente da isometria do exercício anterior.
Inspire da forma correta. Em vez de soltar o ar de forma contínua, faça quatro ataques de S em sequência rápida, e depois deixe o ar sair normalmente até acabar. O padrão é: quatro ataques curtos e fortes, depois sustentação até o ar acabar.
Você vai sentir a musculatura abdominal contrair de forma mais intensa nesse exercício, parecido com o esforço de um abdominal na academia. É o músculo trabalhando. Com o tempo, você pode aumentar para oito ou mais ataques antes de soltar.
Repita cinco vezes. Com o treino diário, a musculatura vai ficando mais forte e o controle mais preciso.
Como e quando treinar
Faça esses três exercícios, nessa ordem, uma ou duas vezes por dia. A sequência importa: primeiro a consciência do padrão correto, depois a carga isométrica, depois o trabalho de força.
Exercícios como soprar uma folha contra a parede, assoprar uma vela ou encher um balão com um fôlego são variações válidas que adicionam alguma variedade, mas no final estão treinando a mesma musculatura que os exercícios acima. Não são obrigatórios.
Com um ou dois meses de treino consistente, você vai começar a perceber que o padrão correto de respiração está se tornando natural. Quando você emitir uma nota, as costelas vão se mover sozinhas, sem você precisar pensar ou pressionar com a mão. Esse é o sinal de que a memória muscular foi criada. Para quem quer avançar depois desse trabalho de base, entender o que é apoio vocal é o passo seguinte natural, já que o apoio é construído em cima do controle que você treina aqui.
E antes de qualquer sessão de estudo ou apresentação, lembre de aquecer a voz. O aquecimento vocal matinal é um bom ponto de partida para quem ainda não tem uma rotina estabelecida.







