O problema real: você vai pro falsete sem querer
Você está cantando, chegou numa nota mais aguda, e sua voz simplesmente quebrou. Ou foi direto para o falsete sem você pedir. Isso não é falta de talento. É falta de uma habilidade específica: a voz mista.
A boa notícia é que você já faz voz mista. Só não sabe disso ainda.
Você já usa voz mista no dia a dia
Pensa naquele grito de chamar alguém do outro lado da rua. Não o grito rasgado de gol. Aquele grito com potência, que você manda com força mas sem rasgar a voz. “Vem aqui!” Isso é voz mista.
Quando você tenta projetar a voz com distância, o corpo ativa esse mecanismo naturalmente. O que a gente vai fazer é trazer esse mecanismo para o canto de forma intencional.
O que é a voz mista
Voz mista, ou Mix Voice em inglês, é a combinação do som da voz de peito com o som da voz de cabeça.
A voz de peito tem aquele som forte, encorpado, com vigor e volume. É a sua voz falada normal. A voz de cabeça tem os agudos mais finos e doces, aquele som que você faz imitando o Mickey, por exemplo. A voz mista pega as qualidades das duas e une. Você consegue chegar nos agudos com potência e encorpamento, sem quebrar e sem virar aquele falsete fino e fraco.
Vale deixar claro: ir para o falsete não é errado em si. O problema é quando acontece de forma não intencional, porque você não sustenta a nota. Aí é sinal de que a transição precisa ser trabalhada.
Belt é voz mista, mas não é tudo
Se você já ouviu falar em Belt, saiba que o Belt é uma das nuances da voz mista. Pensa assim: a voz mista é uma biblioteca. O Belt é um dos livros dessa biblioteca. Ele usa a voz mista para chegar num som cheio de vigor e emoção nos agudos. Mas voz mista é mais ampla do que isso. Tem voz mista de peito, voz mista de cabeça, e várias gradações entre os dois extremos.
Por que sua voz quebra
Quando você canta na voz de peito, existe uma musculatura predominante nas pregas vocais. Conforme você sobe para os agudos, essa musculatura precisa reduzir a atuação para que outra musculatura assuma o comando. É uma transição.
O problema é que essa zona de transição é instável. Se você mantém pressão demais da voz de peito, sua voz grita ou quebra. Se você solta de vez, cai direto no falsete. A voz mista é o que acontece quando você faz essa transição de forma controlada, gradual, sem extremos.
Pensa como trocar de marcha num carro. Você não acelera ainda mais na hora de trocar. Você tira o pé do acelerador um pouco, encaixa a marcha e volta a acelerar. É exatamente isso que você vai fazer com a voz.
Como treinar a voz mista
Reduza o volume na zona de passagem
Quando estiver subindo para um agudo e sentir que está chegando naquela região instável, tire o volume. Não pare de cantar. Não segure o ar. Tire o volume mantendo o fluxo de ar.
Essa queda de volume permite que a musculatura encaixe a transição sem precisar gritar nem cair no falsete. Depois de cruzar a zona, você vai aumentando o volume de volta. Com treino, você vai conseguir manter cada vez mais potência durante essa passagem.
Use a vibração de língua
Outro exercício eficaz é fazer a transição com vibração de língua. Quando você canta com a língua vibrando, o cérebro desativa aquela tensão de segurar a pressão da voz de peito. A vibração facilita a passagem de registro porque tira a resistência do caminho.
Faça a escala subindo com a vibração de língua. Observe na zona de passagem: está fluindo ou quebrando? Esse exercício ensina o caminho correto para a musculatura sem que você precise pensar em cada detalhe conscientemente.
Parta da voz de cabeça e traga volume
Uma terceira forma de encontrar a voz mista é começar da voz de cabeça e ir trazendo mais pressão e volume para ela. Você já está no agudo, já está na voz de cabeça. Agora vai adicionando encorpamento gradualmente até sentir que ela virou uma mistura das duas sonoridades.
Não vai acontecer de uma hora para outra. Mas essa área vai ficando cada vez mais estável com o treino consistente.
Por que vale a pena treinar isso
Quando você desenvolve a voz mista, consegue manter o mesmo timbre durante toda a música. A voz não some nos agudos nem grita nas notas mais fortes. Você não fica no extremo da voz de peito bem forte e depois cai numa voz de cabeça fraquinha. O som fica homogêneo do início ao fim.
Isso também elimina as quebras vocais indesejadas, aquelas que acontecem sem você querer e que interrompem a música no meio. Para quem quer agudos potentes e afinados, a voz mista é a base do trabalho. E quem quer chegar nessas notas sem pressionar demais pode se aprofundar em como cantar notas agudas sem gritar e sem forçar a voz.
O que fazer agora
Comece pelo exercício de reduzir o volume. Pega uma música onde você costuma quebrar nos agudos e faz uma versão mais suave nessa zona de passagem. Não precisa ser a versão final, potente e toda. Primeiro você precisa cruzar a passagem sem quebrar. Depois vai adicionando potência.
A voz mista tem várias nuances: voz mista de peito, voz mista de cabeça, Belt. Mas o começo do caminho é sempre o mesmo: tirar o volume, manter o ar, passar sem quebrar. Do outro lado está o agudo que você quer.







